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segunda-feira, 4 de março de 2013

Entrevista ping-pong com Telo Pinto

 Por Naiara Guimarães

Ocupando o cargo de Presidente da Associação Folclórica Boi-Bumbá Garantido desde o ano de 2010, Francisco Walteliton de Souza Pinto, ou simplesmente Telo Pinto, teve destaque com a implantação de um sistema administrativo onde o sócio se tornou mais participativo dos atos da associação. Também trouxe consigo uma nova perspectiva de agregação de valores folclóricos ao boi-bumbá, quando inseriu a festa com brincantes de outros movimentos populares da região norte. Foi inovador ao lançar o primeiro DVD dos bois, que embalou em 2011 um novo formato de apresentação dentro do Bumbódromo, o que o levou ao título, sempre resguardando a tradição do Garantido, tornando o espetáculo extremamente técnico e preciso. Em uma entrevista descontraída em sua casa, Telo nos conta sobre sua trajetória como presidente do boi Garantido, carinhosamente também chamado de boi do povão.
Naiara Guimarães: Com problemas financeiros oriundos da administração anterior, quais foram as rincipais dificuldades encontradas o seu primeiro ano de mandato? A derrota na arena neste ano teve influencia direta com esses fatos?
Telo Pinto: Recebemos o boi de uma forma complicada do ponto de vista financeiro,com muitas dividas frutas dos desmandos da administração anterior, e organizar a casa não foi fácil. Foi preciso fazer um levantamento de dívidas, bem como suas negociações e instalar uma nova estrutura administrativa, para que pudéssemos começar a pensar em fazer um grande festival. E naquele ano não considero o Garantido derrotado, pois foi trabalhado em cima de muita superação frente as adversidades financeiras e da própria estrutura do Boi, como por exemplo o caso do Davi Assayag que deixou o Garantido de uma forma que nos entristeceu e que causou muito desconforto, e que abriu uma lacuna que mais tarde veio a ser preenchida por Robson Jr, que nomeamos como Levantador, mas que por uma infelicidade do destino, teve um problema de saúde que nos deixou a poucos dias do festival sem perspectivas de preencher esse cargo tão importante que é o de levantador de toadas. Somente a dois dias do festival tivemos a felicidade de encontrar o jovem Sebastião Jr que nunca havia participado se quer de um único ensaio do nosso boi como cantor. Mas ainda voltando ao fato de termos perdido, também tivemos um problema que considero terrível na parte de concepção artística, pois fizemos um boi grande demais para o tamanho da arena, o que ocasionou na perda de minutos preciosos que foram determinantes para o desconto de pontos na apuração.
N.G: Em 2011, com uma postura arrojada, o Boi Garantido lançou um DVD, considerado por muitos a melhor seleção de toadas de todos os tempos, além disso, trouxe para somar ao seu elenco de dançarinos um grupo de Jurutí que foi fundamental nas coreografias de tribos e corpo cênico, e ainda teve a consagração de Sebastião Júnior, que conquistou seu espaço e torcida como Levantador de Toadas. Com tudo isso, e o título nas mãos naquele ano, como você avalia seu segundo ano a frente do Bumbá?
T.P: Considero um dos festivais mais bonitos feitos pelo Boi Garantido. Falar do festival de 2011 nos remete a um sentimento nostálgico, do ponto de vista da concepção artística e do desprendimento que o boi teve. Foi um festival que começou dando certo desde a ideia inicial de se fazer um DVD, até o Bumbódromo, e havia uma movimentação muito forte em relação a busca pela vitória do Garantido. Eu considero o festival de 2011 um marco para todos nós, ali se encerrava um ciclo, e era dado inicio a outro, e encerramos de forma brilhante ganhando o festival. O CD/DVD Miscigenação é grandioso e tem toadas que marcaram época e que vão se eternizar ao longo dos anos. Mas sempre com os pés no chão, sabendo que enfrentaríamos as dificuldades, principalmente as dívidas, mas acima de tudo, assumindo o compromisso de resgatar o nome do Boi Garantido. Pois tão importante quanto um título, para mim é vencer nossas batalhas jurídicas e financeiras.
N.G: Novamente com um projeto estabelecido nos moldes do ano anterior, em 2012, o Mega Show de Gravação do DVD do Garantido, que teve como palco um Bumbódromo completamente tomado de vermelho, trazia a impressão de que por mais um ano o Garantido seria imbatível. Entretanto, o contrário apresentou uma estrutura muito semelhante, muitos dizem até copiada. Isso foi determinante para que o Garantido perdesse o título de 2012? Você considera que a estrutura atual do boi de arena foi copiada e superada pelo adversário naquele ano?
T.P: Começamos o ano de 2012 com muito foco em engrandecer ainda mais o trabalho que havíamos iniciado em 2011. Com um projeto grandioso que nos remeteu a um desafio que foi enfrentado com sucesso por todos nós que foi a gravação de um DVD no Bumbódromo, onde nos perguntávamos se conseguiríamos enchê-lo de vermelho, e a galera vermelha e branca deu a resposta que queríamos, fazendo daquele dia um marco em Parintins. Muitas pessoas vieram de outras cidades, e aquela gravação do nosso DVD fez parecer que aquela era uma noite de festival acontecendo em Janeiro, tamanho foi o movimento de camisas encarnadas. O aeroporto foi super movimentado, barcos e lanchas atracavam de todos os lugares, enfim, houve um supermovimento por causa dessa gravação, o que nos deixou bastante confiantes. Infelizmente, por questões adversas a nossa vontade, tivemos inúmeros problemas, e o prior problema que considero foi a enchente, que nos obrigou a montar uma estrutura completamente improvisada para a confecção das nossas alegorias. No meu ponto de vista aí começou o declínio do nosso astral. Somado a isso, vieram os bloqueios judiciais de repasse de recursos que nos levou a um extremo de incertezas dentro do próprio boi. Somado a isso, acumulamos inúmeras despesas demandadas por conta da as´da da nossa estrutura de galpão para a rua. Isso ao final nos desgastou para a arena e não conseguimos ter a força necessária para o título.
N.G: Neste mesmo ano, um fato inédito aconteceu na arena. Você poderia esclarecer qual foi o fator que ocasionou o atraso para a apresentação do Garantido em uma das noites?
T.P: Em 2012, o contrário estava muito nervoso, havia perdido no ano anterior, e tiveram que assistir a cidade ser tomada por completo de vermelho em janeiro. Isso os levou a cometer uma série de atitudes contrario Garantido que julgo impróprias para que a festa continue seguindo num tom de brincadeira. O fator veio daí, o contrário sabotou o equipamento elétrico dos cabos de iluminação do Bumbódromo, que dão movimento e luz as alegorias. Isso foi comprovado por perícia e isso ocasionou no esfriamento da Galera, é claro, depois de enfrentar horas de filas por aquele momento e ter que passar por mais essa celeuma, é revoltante.
N.G: O boi também sofreu com a chuva em dois principais momentos da sua apresentação. Você entende que o fator natureza pode ter tido peso nas notas recebidas?
T.P: A natureza conspirou contra. Além da grande enchente, ainda tivemos de enfrentar, na noite que considerávamos a mais espetacular do ponto de vista artístico, em um ponto alto de nossa apresentação, 30 minutos de chuva torrencial. Mas nos mantivemos, lutamos, e acredito que mesmo com essas adversidades conseguimos mostrar um boi de qualidade frente a tantas dificuldades, cofiando sempre e acima de tudo em Deus para continuarmos com esse trabalho.
N.G: O ano de 2013 começa marcado por um embate entre um empresário local e o Garantido pela posse de uma área pertencente ao Boi que foi a leilão por decisão da justiça. Você poderia esclarecer qual é a atual situação deste ocorrido? O Garantido pode realmente perder este patrimônio?
T.P: No final do ano de 2012 para o inicio de 2013, tivemos esse problema que abalou nossa estrutura, por conta de um leilão de um patrimônio do Boi Garantido. É bom que se esclareça que esse galpão não foi leiloado por conta de nossa revelia. Buscamos a conciliação com os causadores do processo, e sempre brigamos juridicamente até a ultima instancia para sanar estas dividas. Infelizmente esse era um embate que se arrolava desde 2007e que veio a nos surpreender na instancia final onde tínhamos que dispor de R$50.000,00 para suspender o leilão, porém naquele momento o boi não tinha essa quantia devido os bloqueios que constantemente nos assombravam. O patrimônio foi adquirido por Francisco Vasconcelos, imediatamente tentamos um acordo com este empresário e chegamos a uma negociação. Infelizmente outras pessoas que tinham interesse contrário ao bem estar do Festival, se envolveram na negociação, chegando a fazer propostas volumosas ao empresário por este pedaço do Garantido. Isso nos levou a ter um embate jurídico junto aos tribunais e hoje se encontra suspensa a emissão de posse e ação do empresário nesta área do boi até que a corte dos desembargadores do Estado do Amazonas votem e deliberem pelo melhor comum. Estamos aguardando essa decisão, até lá continuaremos seguindo normalmente os trabalhos.
N.G: É constantemente anunciado na rádio, e televisão, que por conta de dívidas acumuladas ao longo de várias administrações, o Boi Garantido vem sofrendo com constantes bloqueios de suas contas. Como você pretende lidar com este problema que deve influenciar diretamente na construção do boi de arena? Você vislumbra uma solução a curto prazo? Esse problema também pode pesar negativamente na produção e execução do já tradicional e aguardado DVD do Boi Garantido neste ano do centenário?
T.P: É uma coisa que nos preocupa e que nos leva a ter uma atenção mais minuciosa. São inúmeras as ações contra o boi na justiça, como o caso da ex-Cunhã Poranga Jakeline Matos que teve um acidente em 1994, e que hoje chega em instancia final, onde temos que sentar e negociar para chegar um acordo que não venha a prejudicar todo o projeto financeiro do boi para o ano. Mas temos a consciência orçamentária devida para trabalhar o boi de arena com a responsabilidade que nos proporcionará fazer um belíssimo espetáculo, sempre buscando o entendimento e a conversa para fazermos os trabalhos do ano, que já começam agora com agravação do DVD O Boi do Centenário.
N.G: 2013 é anunciado com uma renovação no quadro de itens do Garantido. O posto de Porta Estandarte, ocupado até então por Raissa Barros, está sendo cobiçado por inúmeras jovens que sonham com a oportunidade de defender as cores vermelho e branco. Coma seleção em sua reta final, o que você espera encontrar na futura Porta Estandarte? Você acredita que mais mudanças de itens individuais possam acontecer até o final de sua gestão? Você vê como necessária essa renovação para que haja um envolvimento social maior com o boi entre os jovens que desejam fazer parte dessa festa?
T.P: Uma cobrança natural da comunidade do Garantido é a questão do tempo de permanência de cada item individual no seu cargo, principalmente os itens femininos. Tenho sido muito indagado no boi sobre essa questão. Esse ano tivemos um caso atípico, pois nossa Porta Estandarte, por motivos pessoais se desligará do item, abrindo também o espaço para se pensar sobre a permanência dos que agora estão. Temos feito avaliações, principalmente por que alguns deles não moram em Parintins e o boi de arena exige que haja uma maior interação e comprometimento por sua parte. Mas temos hoje um quadro de meninas prontas para assumir o posto vago, fizemos o concurso e ele já está em fase de computação de votos. Deste concurso além do Item Porta Estandarte, possivelmente também será escolhida as futuras substitutas dos demais itens.
N.G: Para você qual é o sentimento de estar à frente desta Brincadeira, “exatamente” um século depois de Lindolfo Monteverde cria-la? E como podemos esperar que o Garantido venha para a arena em uma ano que nos remete a imaginar que haverá um forte resgate a tradição da brincadeira de boi?
T.P: Estar a frente hoje do Garantido como Presidente é emocionante e envaidecedor. A mais de 18 anos trabalho no boi como coordenador, ajudante, diretor, e estou hoje no posto que é o ápice de todo torcedor. Ser Presidente do centenário me leva a uma emoção diferenciada, pela militância, pelas lutas, por tantos dias e noites dedicadas ao boi. E esse sentimento se confronta com essa enorme responsabilidade. Temos um título a ser recuperado, temos um festival para ser feito de forma grandiosa, pois é isso que a nação vermelha e branca espera. Estar a frente desta luta para fazer esse resgate da brincadeira no ano do centenário, é uma realização pessoal, que vou guardar em minha memória com emoção pelo resto de minha vida.

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