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segunda-feira, 8 de abril de 2013


Um pedacinho do Nordeste em Parintins

Mesmo longe de suas raízes, a cultura nordestina resiste em Parintins

Arigó, esse foi o apelido dado aos nordestinos, principalmente aos cearenses que no período áureo da borracha mudaram-se para Amazônia, são conhecidos como como ‘’soldados da borracha’’. Fugidos da seca e da miséria esses sofridos homens buscaram na Amazônia um refúgio, uma melhor condição para viver.

A cidade de PortoVelho, foi quem os recebeu. Eram colocados em barracões cobertos de palha, localizados no bairro da denominado Arigolândia, e ali passavam dias, e às vezes semanas, até serem encaminhados para os seringais dos vales do Madeira Guaporé.  Esses homens rudes e simples foram apelidados, não se sabe por quem, de arigós e, o bairro formado pelos barracões e casinhas de madeira e palha, foi batizado pelo povo da cidade de Arigolândia, nome conservado ate os dias atuais.

Esses homens contribuíram para povoar as cidades de Porto Velho e Guajará-mirim e os seringais, até hoje são chamados de arigós ninguém sabe ao certo porque, alguns pesquisadores acreditam que deve ser devido ao nome dado a uma ave nativa do nordeste ‘’ Ave de arribação que habita as lagoas do sertão nordestino’’, essa Ave vive mudando de lagoa, sem ponto certo, sem jamais se fixar. Característica essa, que ate hoje caracteriza os árigos, que se deslocam de cidade a cidade em busca de uma qualidade de vida melhor. 

É bem verdade que o Brasil pela sua diversidade cultural poderia muito bem ser dividido, formando vários países independentes e manter sua peculiariedade em cada um deles. Se isso fosse possível, o Nordeste com toda certeza seria a grande nação sertaneja, com vários sotaques diferentes.

A Região Nordestina do território brasileiro é composta pelos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Apresenta grande pluralidade cultural, com elementos diversificados, que integram a cultura da região. É um povo que é conhecido por ser trabalhador, e por possuir uma das melhores e mais diversificadas culinárias do Brasil. 

Em Parintins os arigós, procuram manter esses costumes vivos, trouxeram para a cultura parintinense pratos típicos da região, que foi muito bem aceito pela população, assim como a música, e o trabalho. Contribuem bastante para o fator econômico da cidade, pois em sua maioria trabalham com o comercio.

Gastronomia Nordestina
A cultura popular dos arigós é interessante pela diversidade cultural, seus costumes e sotaques são tão característicos a ponto de serem reconhecidos em qualquer lugar do mundo. Os costumes continuam a fazer parte do seu dia-a-dia mesmo com a migração para diversas partes do Brasil. A culinária também é uma forma de cultura. A nordestina descende da cozinha portuguesa e africana, além da influência indígena, a carne de sol e o cuscuz são os pratos típicos mais mantidos pelos mesmos. Eles também se alimentavam de tubérculos, raízes e farinha.

 A farinha de mandioca, por sinal, para o nordestino, ocupa o mesmo lugar que o pão e o trigo em outras culturas. Ela é completamente obrigatória em muitos alimentos, ora engrossando os molhos, ora complementando o sabor das comidas. 

Maria Vasconcelos 57, diz que sempre utiliza a farinha de mandioca ou a macaxeira para incrementar os pratos, principalmente a sopa e o cozidão. “Dá mais consistência a comida, mais sabor, meus filhos gostam muito”.
Atualmente as comidas tradicionais que foram adaptadas aos recursos e ambientes locais, formando a variada culinária nordestina, são pratos de produtos do mar ou do sertão, que se aliam aos pratos tradicionais da várzea, da serra ou da mata.

 Erundina Souza 46, cita quais são os principais pratos da culinária Nordestina. “Ensopado de caranguejo, Buchada, Mocotó, Rabada, Carne de Sol, Mungunzá, Arroz de Leite, Arroz Doce, Tapioca, Coalhada, mocotó, Cuscuz, Arrumadinho, Macaxeira, Baião de Dois, Canjica, Pamonha, Rapadura, a nossa cachaça, entre outros”. Tem de tudo, para todos os gostos. Do mais sofisticado ao mais simples. 

Sabino de Souza 40, conta que mesmo morando em Parintins há quase 21 anos, não perde os costumes da sua origem, principalmente a culinária. “Eu e minha esposa procuramos sempre fazer aqui em casa comidas da nossa terra, o peixe cozido que aqui falam caldeirada, nós chamamos cozidão de peixe, colocamos muitas verduras e o caldo e grosso, também costumo comer o cuscuz com leite. Mesmo tendo me adaptado à cultura parintinense eu não deixo de lado a minha cultura Nordestina”.

A esposa de Sabino, Jackeline de Souza 23, relata que por ter vindo a um ano de Sobral sente falta principalmente das comidas típicas de sua terra, por isso, sempre que pode improvisa algumas iguarias. Porém, diz que não estranhou a culinária amazonense e que já está se adaptando a essa nova cultura.

A grande variedade de fruta e açúcar também inspira receitas de doces, licores, vinhos e batidas (cachaça batida com fruta). Maria da Solidade 72, natural de Ceará, mora há 30 anos em Parintins, recebe várias encomendas de doces caseiros, entre essas encomendas, por coincidência os mais pedidos são típicos da sua terra o doce de mamão e o de caju.

“Ao mês eu acredito que recebo aproximadamente 150 pedidos de doces de frutas, entre eles o de mamão e o de caju são os que mais saem, e são do Ceará, da terra que eu nasci.” disse.

Folclore Nordestino
 Os gêneros musicais como o sertanejo e o forró são ritmos provindos da cultura nordestina, mais que hoje foram adotadas em muitas partes do território brasileiro e não pode esquecer a religião, que é mantida fervorosamente pelos arigós. 

Essas são algumas características que ajudam a identificar um migrante nordestino em qualquer âmbito, essas marcas ajudam contar um pouco mais sobre a sua história. O carnaval é o evento popular mais famoso do Nordeste, especialmente em Salvador, Olinda e Recife. Também as festas juninas de Caruaru e Campina Grande se destacam.

Francisca da Silva Gomes 66, frisa que existe uma diferença entre as festas juninas do nordeste e as festas juninas do Amazonas. “Quando ainda morava no Maranhão e era católica, eu sempre participava da festa de São João, o povo lá é muito participativo diferente daqui, hoje sou evangélica não frequento, mais eu ouço comentários de que o povo de Parintinense está deixando de lado essa tradição” 

 Os festejos de bumba meu boi são tradicionais em todos estados nordestinos. Esta festividade apresenta um pequeno drama. O dono do boi, um homem branco, presencia um homem negro roubando o seu animal para alimentar a esposa grávida que estava com vontade de comer língua de boi. Matam o boi, mas depois é preciso ressuscitá-lo. 

É possível perceber algumas características do boi bumbá de Parintins. José Euridice comenta sobre as duas manifestações culturais. “Às vezes acho semelhanças entre o ritmo do nordeste e do boi bumbá. Já me acostumei com as diferenças, afinal a cultura parintinense se espelhou na cultura nordestina, porém o festival se tornou mais grandioso, mas boa parte da colonização de Parintins foi feita pelos nordestinos”.

A capoeira foi introduzida no Brasil pelos escravos africanos, é considerada uma modalidade de luta e também de dança. Adquiriu adeptos rapidamente nos estados nordestinos, principalmente na Bahia e Pernambuco. O instrumento utilizado durante as apresentações de capoeira é o berimbau, que é constituído de arco, cabaça cortada, caxixi (cestinha com sementes), vareta e dobrão (moeda).

O Reisado é uma manifestação cultural trazida pelos colonizadores portugueses. Apresenta um espetáculo popular das festas de Natal e Reis, cujo palco é a praça pública, a rua. No Nordeste, a partir do dia 24 de dezembro, saem os vários Reisados, cada bairro com o seu, cantando e dançando. Os participantes dos Reisados acreditam ser continuadores dos Reis Magos que vieram do Oriente para visitar o Menino Jesus, em Belém. 

Em Parintins, é realizada a festa das Pastorinhas, manifestação esta que os nordestinos dizem ser semelhante a do Reizado. O comerciante Euclides Barbosa, 44, comenta que se emociona muito com a Pastorinha, pois lhe relembra o tempo em que sua mãe o levava para assistir e participar do Reizado. “A diferença é que lá muitas pessoas participam, inclusive minha família toda. Diferente daqui, que vejo poucos brincantes. Mas não perco o costume de todos os anos assistir, e de alguma forma, poder lembrar de minha terra, sentindo como se estivesse lá.”

A fé é um ponto forte do povo nordestino. Nas pequenas cidades, ou interiores, organizam junto à igreja quermesses que tem por fim arrecadar dinheiro para ser direcionado a reformas na capela local. Esta festividade tem em seu fim um leilão de coisas simples como, frangos assados, material agrícola, entre outros objetos que ajudam a arrecadar fundos lucrativos. Procissões e missas também são realizadas.

Maria Alves Vasconcelos disse “Pessoas de outras cidades migram para onde está acontecendo às quermesses. Todo mundo dança ao som das bandas locais e se diverte com a compra dos produtos do leilão”.
Outras danças como, frevo e capoeira estão tecidos no contexto cultural nordestinos, porém os arigós que vivem na Ilha Tupinabarana não mantem vivo esta parte de sua história em Parintins. O frevo surgiu através da capoeira, pois o capoeirista sai dançando o frevo à frente dos cordões, das bandas de música, executando passos semelhantes ao da capoeira. É uma dança de alucinação coletiva, do carnaval pernambucano, é praticado em salões e nas ruas.

Pode-se encontra também a Marujada, que é um bailado popular muito antigo. Consiste na dramatização das lutas portuguesas, da tragédia que foi a conquista marítima. E Quilombo que é um folguedo tradicional alagoano, tema puramente brasileiro, revivendo a época do Brasil Colônia. Dramatiza a fuga dos escravos, que foram buscar um local seguro para se esconder, na serra da Barriga, formando o Quilombo dos Palmares.

Literatura de Cordel é uma das manifestações culturais nordestinas e consiste na elaboração de pequenos livros contendo histórias escritas em prosa ou verso, os assuntos são os mais variados: desafios, histórias ligadas à religião, ritos ou cerimônias.

Outro elemento cultural de extrema importância no Nordeste são os artesanatos. A variedade de produtos artesanais na região é imensa, entre eles podemos destacar as redes tecidas, rendas, crivo, produtos de couro, cerâmica, madeira, entre outros.

Religião
Os nordestinos são fervorosamente religiosos, tem seus santos e gostam de participar de todos os eventos relacionados a igreja e respectivamente a religião.

O maracatu é originário de Recife (PE), surgiu durante as procissões em louvor a nossa Senhora do Rosário dos Negros, que batiam o xangô (candomblé) o ano inteiro. O maracatu é um cortejo simples, inicialmente tinha um cunho altamente religioso, hoje é uma mistura de música primitiva e teatro.

O termo de Zabumba é uma forma dos nordestinos  unificarem religião com festa através de um conjunto musical típico do Nordeste, que alegra sempre as festejos. O Terno de Zabumba exerce função profana e religiosa. Tocam as “salvas”, nas rezas e novenas. É conhecido também pelos nomes de Terno de musicas, Esquenta mulher, Cabaçal e Banda de Couro.

Lavagem do Bonfim é uma das maiores festas religiosas populares da Bahia. É realizada numa quinta feira de janeiro. Milhares de romeiros chegam ao Santuário do Senhor do Bonfim, na Bahia. Senhor do Bonfim é o Oxalá africano, existem também promessas católicas de “lavagens de igrejas”.

Os fiéis lavam as escadarias da igreja com água e flores. Eulália Vasconcelos 80, fala da sua religião fervorosa.
“Somos um povo muito alegre e muito religioso, criados em uma cultura onde nos incentivaram a ir a procissões, frequentar igreja, enfim colocar a crença religiosa em primeiro plano. Quando me mudei pra cá me identifiquei com a cultura local e logo me adaptei”. Ela conta que a festa da padroeira de Parintins se tornou um momento esperado, pois ela adora ver a fé dos parintinenses sendo reproduzida nas via sacras e procissões deste período.

É válido ressaltar a importância dos nordestinos em Parintins, visto que são grandes contribuintes para a economia local. Trazendo seus costumes e tradições, incluindo comidas típicas, música que hoje em dia fazem parte da cultura parintinense.Mesmo vivendo em outros lugares do mundo, os arigós procuram de alguma forma manter alguns costumes, seja na culinária ou até mesmo ouvindo um bom forró de baião. 
Não  importa de que forma buscam reviver, o que importa é que nunca deixam de lembrar das suas origens.

Migrações Nordestinas: A vida de quem veio tentar a sorte no Amazonas


Migrações Nordestinas: A vida de quem veio tentar a sorte no Amazonas

Há aproximadamente um século, segundo indícios da história, surgiram os primeiros focos de migrações de indivíduos nordestinos em direção à região norte do Brasil. A princípio, a causa teria sido a grande seca de 1877 a 1879 que assolou o nordeste fazendo com que milhares de pessoas fugissem de suas terras natais. Este primeiro contingente migratório era formado por pessoas que trabalhavam diretamente com as terras do sertão nordestino, isto é, pequenos agricultores que tinham como único meio de sustento para família o trabalho no campo, o qual era enfrentado com muita luta contra as condições climáticas desta região.
Apesar dos problemas de ordem climática, outro fator que contribuiu grandemente com as migrações nordestinas foi o período do surgimento do ciclo da borracha, que se deu início aproximadamente no ano 1980. Nesse momento da história, cerca de meio milhão de nordestinos, dentre eles indivíduos originários dos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e principalmente do Estado do Ceará já se encontravam na Amazônia, especificamente nos Estados do Pará e Amazonas.
Nessas fugas e caminhadas em busca de melhores condições de vida e até mesmo o espírito aventureiro nordestino com intuito de conhecer novos horizontes, muitas esposas, filhos e filhas de pequenos agricultores e comerciantes vindos do Ceará, não tiveram outra escolha a não ser acompanhar o marido, chefe da família, na nova jornada rumo à esperança de dias melhores.
Assim é a história de dona Geralda Xavier, hoje com 85 anos de idade, vive no município de Parintins. Nascida em Sobral, interior do Ceará, ela conta que saiu de sua cidade natal aos 25 anos, juntamente com o marido em busca de melhores oportunidades de trabalho e também por curiosidade de conhecer a região norte, e fixou residência primeiramente em Manaus, capital do Estado do Amazonas. Depois de alguns anos, acompanhando o marido a negócios, veio morar em Parintins. A vontade de conhecer esta região era grande pelo fato de seus pais terem vivido aqui na época do ciclo da borracha. “Meu pai veio por causa da promessa que meu tio fez de colocá-lo para trabalhar num seringal, mas ele foi enganado. Quando meu pai chegou aqui não era nada disso”, conta dona Geralda que também não deu explicações sobre o que acontecera com o pai depois de ter chegado aqui. Ela e o marido, já vivendo em Parintins, abriram um comércio de estivas que não deu muito certo, e então depois de algum tempo mudaram para uma loja de ferragens para manterem a família na época em que chegaram. Hoje o comércio ainda existe e é administrado pelo filho mais novo.
Quanto às diferenças culturais, a primeira a ser notado por ela foi o sotaque, “o cearense fala mais feio, quando cheguei aqui às pessoas riam quando eu falava, mas eu fazia de conta que não era nada”, diz ela de forma extrovertida. Embora os motivos de dona Geralda migrar com seu marido para Parintins sejam o de conhecer o lugar onde seus pais viveram um dia e também pelas condições não muito boas de vida que tinham no Ceará, outras histórias de migrações se entrecruzam nos caminhos desses retirantes.
Outra história de vida, mas que se baseia apenas na esperança de dias melhores é a de dona Maria da Conceição que na década de 80, ainda jovem, migrou com seus pais, da cidade de Massapê onde nasceu interior do Ceará, para o município de Parintins. Ela conta que a vida não foi fácil quando chegaram aqui, “meu pai largou tudo lá no Ceará, deixou gado, fazenda e veio pra cá trabalhar com frete, ele comprou um caminhão financiado e assim ele conseguia ganhar algum dinheiro e dava pra viver.” Três anos mais tarde a família voltou para o Ceará por causa de sua mãe que foi acometida de uma doença. Sete anos depois, em 1990, dona Maria casou e migrou novamente para Parintins, mas dessa vez com o marido que tinha uma proposta de emprego em um comércio da cidade. Desde então vivem em Parintins, atualmente são autônomos e possuem um comércio no centro da cidade. Ela conta que nunca teve a ambição de ficar rica, mas conheceu vários conterrâneos que vieram para o município com a situação financeira muito precária, se tornaram comerciantes bem sucedidos e voltaram ricos para o Ceará. “Eu penso em voltar com a minha família para o Ceará, mas por enquanto não se torna possível, nós não temos estrutura nenhuma lá e moramos em casa alugada aqui. Pra irmos precisamos comprar uma casa lá primeiro e arrumar um jeito de ganhar dinheiro”, explica dona Maria Conceição que mesmo sem grandes ambições almeja ter uma casa própria e uma vida mais digna.

Francisca viera da Costa conta que seu marido Jerônimo Farias de Souza vinha freqüentemente para a região norte, através de suas amizades conheceu vários lugares e cidades e dentre algumas do amazonas, se encantou pela cidade de Parintins aonde chegou em 1982, pois uma proposta de trabalho de seu amigo que antes morava na mesma cidade no ceara e logo veio para a ilha tupinambarana. Em sua cidade natal Massapé seu marido trabalhava como agricultor, mas o dinheiro que ele ganhava não dava para arcar com as despesas da casa onde moravam. Com sua chegada na cidade logo começou a trabalhar em um pequeno comercio na João melo onde também morava. Com o tempo retornou para o nordeste para vender seus bens e já trouxe consigo sua esposa, e com essa pequena ajuda financeira logo veio de volta com o intuito de morar e construir uma nova vida. Alugaram uma casinha e com o restante do dinheiro montaram uma pequena lanchonete próxima a lagoa da francesa, e essa atividade os faziam permanecer na cidade.

Dona Francisca a principio estranhou muito o ambiente e o lugar onde estavam o jeito das pessoas eram diferentes do que ela estava acostumada, o modo de se vestir, o sotaque, a culinária totalmente diferente de sua terra. Ela diz que no começo mesmo com o pequeno ponto a condição não era das melhores e sempre pensou em voltar para sua cidade, pois Parintins é uma ilha diferente de massapê, onde se acostumou com todas as adversidades que lhe oferecia. Ao longo da conversa sempre surgem fatos inusitados, como ela mesmo nos conta. Um dia eu fui ao mercado comprar comida e as pessoas começaram a rir quando eu falava. Fiquei sem entender nada, e me chamavam de arigó. Voltei pra casa e contei para o meu marido sobre o acontecido. Ficamos rindo sem entender absolutamente nada do que aquela gente quis dizer. Com isso nunca mais me esqueci daquele dia, e resolvi tirar duvidas sobre o termo que usaram pra indicar que não era uma pessoa da região norte. Francisca diz que sempre quis voltar para massapé, tem saudades de como era o modo do povo daquela cidade, mas seu marido é contra a essa atitude, pois, no lugar que eles se instalaram, como Parintins não tem contra-indicações e sem duvidas é um bom lugar pra se viver.
Um caso que é muito parecido com as outras restantes, é que as mulheres são submissas aos maridos, sem voz para tomar decisões e o próprio rumo. Com certeza é uma questão cultural.

Chegando à cidade de Parintins dona Maria Severina, 68 anos, morou na cidade de juazeiro do norte, conta que a situação do local não era como ela estava acostumada, pois tudo mudou, as pessoas eram diferentes em seus costumes, cotidiano, enfim. Porém era um lugar propício para que pudesse erguer uma nova lida, seguir um rumo mais próspero nas suas vidas. Dona Maria conta: ”No nordeste tínhamos nossas famílias por perto, mas um futuro incerto, sem oportunidades. Naquela época muitos vinham tentar a sorte no norte e pensamos da mesma forma. Porque não ir tentar uma vida melhor em uma nova terra. Imaginou também, que as pessoas que vinham para esta região e não retornavam mais, era um sinal bom de que lá tiveram sorte e progrediram.” 
O que ela não contava, apareceu em certo dia e irá permanecer por toda a sua historia. A saudade de sua terra, amigos e familiares que ficaram lá em Massapé. Ela conta que já faz muito tempo que não os vê e, nem sabe como estão se vivos ou mortos, ricos ou pobres. Por vontade e submissão de seus maridos elas acabam por não pra onde optar, ou seja, não podem sair de perto do homem. Mas a vontade só aumenta, de ver a terra querida novamente, e poder enxergar com os próprios olhos o que do passado restou. “meu filho, somente restou à saudade dos velhos tempos de menina, quando eu ia pra campina e brincava com meus amigos de infância. Tempos bons se vão, mas ficam guardados dentro do coração.” Recorda dona Maria.
O fluxo migratório de nordestinos para a região norte foi um fator redundante para boas e não tão boas histórias. Na época áurea da borracha atraída pelas ótimas ofertas de trabalho nos seringais, vivendo num lugar maravilhoso por natureza, onde principalmente teria o que não se tem com abundância naquele lugar, e que o povo do nordeste clama divinamente, a Amazônia ofereceu a eles. A água, que tanto faz falta para os nordestinos.
Vimos nesse trabalho que os modos antigos que se enraizaram na cultura dos nordestinos, como a imposição masculina prevalece sobre as mulheres é um absurdo, porém, somos cidadãos livres para pensar, agir e falar por si só sobre nossas atitudes, sobre nosso destino.


Por: Grupo três.

Traços Arigós na cultura parintinense


 
O jeito peculiar dessa gente contribui para o desenvolvimento local.

                                                                                                Fonte: Grupo 01
 Antônio Gregório (à direito) em seu ambiente de trabalho 

A cultura parintinense é constituída a partir da aculturação com outros povos como os japoneses, italianos, judeus, entre outros. Há ainda os nordestinos, chamados no município de arigós que chegaram no século passado à cidade, aqui se fixaram e contribuem de maneira significativa para formação da sociedade no município.
Darcy Ribeiro descreve em O Povo Brasileiro (1995), que no passado o sertão, lugar de onde vem à maioria dos arigós, era um ambiente de difícil sobrevivência, pois  a vegetação era pobre, com pastos ralos e secos, a terra e as irregularidades do regime de chuva geravam uma economia pobre e dependente. “A vida do cearense é muito difícil porque é castigada pelo tempo, pelas secas, as condições são difíceis”, diz  o sobralense Antônio Gregório, 66, conhecido como Gringo. 
Assim muitos deles mudavam-se para diferentes localidades do país. A Amazônia foi um desses lugares que recebeu um fluxo intenso de pessoas vindas da região do nordeste, eles eram bem aproveitados em razão da predisposição ao sacrifício e a violência, uma tipicidade exclusivamente deles e que fez com que recebessem a descrição pelo nome arigó.
Em Parintins, no interior do Amazonas, há uma porção deles, alguns chegaram há muitos anos e fixaram residência, outros estão se estruturando ainda. Mas, já se destacam por uma qualidade que os parintinenses consideram ser o ponto forte de muitos deles, o comércio. A maioria das pessoas o definem como bons negociantes e quando se fala no assunto, a referência são os arigós.
De acordo com informações da Associação dos Comerciantes e Lojistas de Parintins (ACLP), não há um registro específico do número de comerciantes arigós na cidade, isso porque muitos deles ainda trabalham de maneira informal. É o caso de muitos prestamistas (vendedores ambulantes de mercadorias), esse tipo de atividade é desenvolvido por muitos deles, que negociam utensílios com pagamentos a longo prazo.
Outros estão espalhados por diversos cantos da cidade, sem mencionar os arigós que se concentram em uma das ruas mais movimentadas do centro do município, a João Mello, conhecida também como a rua do comércio. Dentre eles alguns ainda mantém sua tradição cultural no jeito de falar quando querem atrair os clientes. São sempre muito receptivos, esse é um diferencial que faz com que eles se sobressaiam.
A maneira como arrumam um objeto na prateleira da loja, a forma da expressão facial, a voz num tom mais elevado e sempre sorridente, estas são características natas de um arigó. Outro ponto que os Parintinenses sempre fazem resalva é de que muitos dos grandes comerciantes existentes na Ilha Tupinanabarana começaram seus empreendimentos praticamente do nada, estendendo suas mercadorias no meio da rua.
Foi assim que aconteceu com Edmilson Xavier Lisboa, 62, que nasceu na cidade de Sobral, no interior do Ceará. Logo que chegou a Parintins, vendia perfumes em tabuleiros. Atualmente Edmilson é proprietário de uma loja de eletroeletrônicos na rua do comércio, já faz mais de 40 anos que ele mora em Parintins e já se considera filho da terra.
Ele fala que o motivo para ter deixado a sua terra natal teria sido a vantagem da margem de lucro econômico que, segundo ele, em Parintins as mercadorias são vendidas por um preço bem maior que o de lá, isso faz com que a estabilidade financeira das famílias que trabalham no ramo do comércio, crie grandes espectativas de vida e optem por morar no município.
Para Edmilson, nas cidades do interior do Amazonas a concorrência é pouca e facilita ao máximo a saída dos produtos a venda, eles saem da loja em curto tempo e  por uma quantia grande de unidades e valor.
Quando muitos desses arigós mudam para outras regiões, pressupõe-se que de alguma forma e por algum tempo haja um estranhamento com relação à cultura ou costumes do respectivo lugar, diferentemente do que muitos possam pensar, alguns deles ainda mantêm fortes ligações com a culinária e o jeito de ser típico desse povo, muitos deles ainda continuam com os mesmos traços culturais do nordeste.
Uma situação parecida é a do vendedor de confecções, Dênis Moreira da Silva, 45, nascido em Fortaleza, capital do Ceará, mora em Parintins há 12 anos, começou o seu empreendimento da mesma maneira como a maioria de seus amigos, que herdaram a profissão dos pais, e viram em Parintins uma alternativa para comercializar seus produtos, pois, de acordo com ele, havia uma carência muito grande no mercado de roupas na cidade.
Apesar de Dênis ter encontrado dificuldades de adaptação com a cultura e modo de ser do povo Parintinense, já conseguiu se harmonizar com as características e o dia-dia do parintinense. Dênis disse que, conseguem atrair clientes porque são extrovertidos e estudam a maneira de ser das pessoas quando entram na loja, falou ainda que os turcos são referência no comércio e os arigós são os turcos de Parintins.
Dênis relatou que o perfil do cliente caboclo, é tímido, com muita vergonha e de certa forma desorganizados, ao invés das vitrines, preferem os tabuleiros e gostam de ficar muito à vontade quando estão escolhendo algum produto, gostam de conversar e de preferência com quem fala a mesma linguagem deles.
Há quem confirme essas especulações mencionadas por Denis.  Edmilson Xavier relatou um fato, em um de seus amigos abriu uma loja de eletrodomésticos, com vitrines, ar-condicionado, mas, o negócio não estava dando certo, niguém comprava os produtos, foi aí que Edmilson sugeriu para que seu amigo mudasse a estrutura da loja, para o jeito mais simples possível, o seu amigo seguiu o conselho e então passou a vender mais produtos.
Edmilson falou que a loja começou a faturar mais e o empreendimento deu tão certo, que hoje é um dos maiores de Parintins. Os arigós acreditam que se o caboclo ver uma loja muito bonita e organizada, é capaz de os clientes nem  entrarem, só pelo fato de pensarem que o ambiente não foi feito para eles. Em termos de organização, eles preferem não arriscar e isso é fato.
Na maioria das vezes é comum notarmos os pequenos comerciantes arigós da cidade, em pequenos box ou tendas, sem camisa e vendendo algumas coisas por um preço mais barato, o que faz ser mais acessível para quem compra e por isso ganham o maior número de clientes em pouco tempo.

Culinária
A culinária do arigó é bastante diversificada com comidas tipicamente nordestina que influencia bastante na culinária parintinense. As comidas se caracterizam por serem apimentadas e terem temperos marcantes.  Alguns arigós que moram em Parintins, ainda mantêm os mesmos tipos de costumes e tradições de guloseimas trazidos do Nordeste, como: cuscuz, vatapá, carne de sol e a feijoada.
“Em Massapé (Ceará) gostávamos de comer cuscuz, feijão com toicinho e peixe frito. Ainda tento manter esses costumes aqui em Parintins, de vez em quando faço essas comidas para minha família”, diz a sobralense Maria Benedita, 62.
Por ser influente na região amazônica, é possível encontrar em Parintins alguns pratos típicos nordestinos nas festas juninas e arraiais. Quem nunca provou o famoso baião de dois, mingau de mungunzá, vatapá, paçoca, bolo de macaxeira, tapioquinha, quebra queixo, cuscuz, canjica? Assim, é preciso levar em consideração que o povo parintinense herdou muitos pratos dos arigós.
“Sou Amazonense e gosto muito da comida nordestina, principalmente das comidas que são vendidas em festas juninas e nos arraiais das festas dos Santos, no mês de junho. Em casa também faço comidas que gosto como pamonha, tapioquinha e outros” - declara a parintinense Trindade Soares, 42.

O trabalho na vida dos arigós
Os arigós valorizam muito o trabalho em todas as suas dimensões. Para eles esse exercício social tem um valor importante na construção de valores éticos e da dignidade pessoal. O trabalho é colocado na vida dessas pessoas muito cedo, e isso é um legado passado de pai pra filho. Isso é evidente na forma de administrar seus negócios e está presente em suas vidas cotidianas com o jeito particular de convencimento e da relação interpessoal que até hoje é comum, é aprendida na própria família.
Segundo Wenderson Alves, 26, descendente de arigó diz que não têm medo de trabalhar e se adaptam em qualquer lugar, devido as constantes viagens que faziam, e pelas dificuldades que enfrentavam ao migrarem de uma cidade para outra, em busca por melhores condições de vida. O trabalho para eles significa a conquista de espaço, dignidade e realização financeira.
Isso se percebe na atuação de suas funções como a de vendedor, cobrador e prestamista. Wenderson relatou que a pior dificuldade enfrentada pela família foi ao chegar em Parintins, pois aconteceu o estranhamento com cultura local e as demais manifestações que divergem  de seus costumes. A diferença de clima e as condições de solo inapropriadas para alguns produtos trazidos do Maranhão dificultaram a forma de trabalhar, pois a família vivia da agricultura. O comercio apareceu na vida da família como outro meio de sobrevivência. Hoje segundo ele a família tem uma condição de vida suficiente para sobreviver, e não pensam em sair de Parintins.
Na sua cidade Natal vão somente para visitar seus parentes e matar a saudade de amigos que deixaram para traz. Como em outras culturas e sociedades distintas, os arigós possuem um laço afetivo muito forte. A família é muito importante na vida dessas pessoas, o seu papel é configurado até na hora da distribuição das funções de trabalho.  Uma característica bem peculiar nessas pessoas é a capacidade de adaptação, a interação e a luta para conseguir seus objetivos dando prioridade para o não desperdício.


A mulher arigó
              As mulheres destes nordestinos ainda mantém certa submissão aos mandos e desmandos do marido, muitas deixaram seus familiares para acompanhar seus esposos para diversas localidades do país. Benedita Maria, 62, trabalhava como professora em Massapé, e deixou a cidade para seguir viagem com o marido. Ao chegar a Parintins com o Francisco Justos, 67, parou de trabalhar para cuidar do lar.
              A sociedade ainda vê isso com certo ar de preconceito, sendo que, nos dias de hoje a mulher já elevou seu modelo de vida, e está cada vez mais inserida nos trabalhos fora de casa. Com essa família é diferente, é um modo de preservar a maneira como vivem. “Ele não me deixou mais trabalhar, disse para eu escolher cuidar da casa ou trabalhar, e optei por cuidar da casa”, diz Benedita.
              A sobralense Maria Lisboa, 57, também deixou de trabalhar para cuidar da casa e do comercio junto ao marido Raimundo Alves, 67. Pode-se notar também, certa submissão, essa que como diz os natos arigós vem de família, passado de pai para filho, cultura que é preservada ainda que longe de sua terra natal. “Não tive dificuldade em me adaptar ao cotidiano e modo de vida que a cidade oferece, até mesmo pela diversidade de culturas que há.”

Adaptação
Os arigós normalmente têm coisas em comum, por exemplo, o modo de ver a vida, de ir à luta e através do trabalho pesado conquistar seu modo de sobreviver. Em sua cidade de origem, no começo trabalhava no campo, roçado e plantações, e tinham a fartura de alimentos, “De certa forma, não queria vir, mas pelo fato de ser casada e ter respeito ao meu marido me submeti à vinda pra cá”. Diz Benedita.
Antônio Gregório chegou a Parintins no dia 14 de outubro de 1969 e fala que desde então a cidade mudou muito. Assim como outros retirantes um dos principais motivos que impulsionou o sobralense a emigrar de sua região para Parintins, foi a busca por melhores condições de vida, obrigando-o a deixar para trás sua família, costumes e hábitos.
 Adaptar-se em culturas totalmente diferentes é uma das principais dificuldades que o ser humano enfrenta quando precisa se deslocar de um lugar para outro, se deparando com uma realidade totalmente desconhecida. “Foi um pouco difícil me adaptar aqui no começo porque eu não tinha ninguém, e ainda via algumas pessoas me olharem de um jeito estranho por eu ter vindo de fora,” lembra Antônio Gregório.
A alimentação do amazonense também causa estranhamento, pois tem como base o peixe com a farinha de mandioca, e frutas típicas da região como tucumã, mas muitos arigós gostam e aderem ao seu cardápio alimentar. Como Maria Lisboa que gosta muito de pão com tucumã e peixe assado com “pirão de farinha”.
O modo de interagir é bem visível, na medida em que conhecem e se aprofundam na história local da cidade. Por isso tem grande tendência em se desenvolver, tanto economicamente quanto culturalmente.